Máquina do Tempo

quarta-feira, março 29

ESTA ILHA TEM MISTÉRIO ( O GUIÃO )


Malvado telefone, quem será agora?...estou, quem fala?... Eh senhô, é da casa do srº pintor?... Pintor de quê, minha senhora?... Éme o senhor que pinta quadros!...aaaaaah, é o próprio, Armando Moreira, em que é que lhe posso ser útil?... sabe srº Moreira, a gente queria que o srº nos pintasse o guião de Nossa Senhora, é que o outro está como se tudo aquilo estivesse a chorar... a chorar como minha senhora?... a gente não sabe bem, mas é uma coisa muito esquisita, acho que o srº devia vir cá acima ver isto...
Lá fui eu, máquina fotográfica à tiracola, e comitiva de recepção à minha espera, três senhoras trajando de negro e o sr. José, guardião do templo, sacristão à mais de trinta anos, olhar franco com um brilho de desconfiança natural nas pessoas das freguesias.
Realmente eu nunca vi uma coisa assim, esta pintura está a desfazer-se, é como se a tinta esteja a chorar, será do pano?... da tinta?... sei lá ... ora vai ter que se pintar um guião novo...o srº Moreira tome atenção é que a festa de Nossa Senhora é já daquí a dois meses...vamos ver, vai ter que dar tempo. Combinado o preço e outros pormenores do trabalho, lá segui rumo a Ponta Delgada, com a promessa de voltar uma semana depois com amostras do tecido e fazer fotos da Santa. Assim foi, uma semana depois estava à porta da igreja de máquina em punho, estava uma tarde linda e soalheira, apenas o chilreado dos pássaros quebravam a paz que se respirava alí no adro junto ao templo...eh sr. Moreira, esteja à vontade esta é a casa de Deus e sua também, o srº faça o que entender que eu vou ali mudar uns gueixos e já volto. Entrei e olhei para o altar-mor onde estava a Santa...já tenho aqui um problema, como é que eu vou ali acima fazer fotos de forma a ter uma visão periférica correcta da imagem?... depois de muitas voltas lá consegui trepar por uma escada toscamente talhada por detrás do altar e posicionei-me, lateralmente para um postigo existente, ora como a imagem estava de perfil para mim naquela posição, havia que a virar de frente... aqui começa o estranho da história ... Um estranho e intrigante silêncio, nem se ouviam os pássaros ... Achei que, qualquer coisa, não batia certo, era como se o mundo tivesse parado ... Ora bem vamos lá virar a imagem para mim com todo o cuidado, não haja algum desastre e ainda me cai do altar abaixo...abracei aImagem para a virar e ... uma grande confusão de sentimentos assaltou-me o espírito... a imagem não era de loiça, era como se estivesse a abraçar uma pessoa, e o que me invadiu foi um uma sensação de profunda paz e bem estar, a minha cabeça tentava descodificar tudo aquilo mas...dei por mim a descer a tosca escada, sem saber muito bem o que se tinha passado ali, tampouco ter tirado as ditas fotos...olhei para para trás já ia eu pelo corredor centro da igreja e lembrei-me não ter virado novamente a imagem para a frente...A Virgem estava na sua correcta posição e olhava-me com um sorriso no semblante...
As fotos estavam na máquina, o guião foi pintado, dizem que o mesmo faz milagres, cura as pessoas e que quando sai a procissão as pessoas choram ao olhá-lo...
Que raio de maluqueira me terá dado...porque cargas de água vos estou eu a contar isto????

7 Comments:

Blogger Fátima Silva said...

É de arrepiar esta sua descrição. Parece tudo muito surrealista!

3/29/2006 5:55 da tarde  
Blogger Zuca said...

Armando, esta já me havia contado, de facto é uma situação muito confusa, será que não foi tocado por Deus ou por algum anjo, para realizar esta obra? Ou terá sido um caso de déjá vu?
Déjá vu, é usualmente pensado como uma impressão de já ter visto ou experimentado algo antes, que aparentemente está a ser experimentado pela primeira vez. Se assumimos que a experiência na verdade uma recordação, então o déjá vu ocorre provavelmente porque uma experiência original não foi completamente codificada. Nesse caso parece provável que a situação presente dispare a recordação de um fragmento do passado que se baseia numa experiência real mas de que temos apenas uma memória vaga. A experiência pode ser perturbadora, principalmente se a memória está tão fragmentada que não há conexões fortes entre esse fragmento e outras memórias ou nenhuma conexão consciente pode ser feita entre a situação actual e a memória implícita.
Armando, o importante é que o seu trabalho foi reconhecido e apreciado.

Um abraço
Ruy

3/29/2006 6:29 da tarde  
Blogger Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba said...

Pois eu adorei isso!!!
Senti até uma certa saudade dos meus dias mais folgados e que eu podia me dar ao luxo de exagerar nas letras e comprimentos dos textos!!!
Gosto mesmo muito do modo como escreves e espero gostar tanto quanto, do que fazes em telas...

Abraços a todos e beijinhos especiais a ti e a MDeus!!!

ò,ó

3/30/2006 12:56 da tarde  
Blogger Teresa Rebelo said...

Ninguém nasce por acaso, mas há pessoas que nasceram para...cumprir ... realizar...o que lhes foi concedido...e mais não digo, por agora.
Porque nada acontece por acaso! Nada!
E Deixo no ar esta pequena faísca como tema para a nossa próxima tertúlia. O que acham? ;)

Um Abraço
Teresa

3/30/2006 11:48 da tarde  
Blogger marisa said...

pois! ja me havias contado esta história na nossa turtúlia no dia do chá verde! Achei fascinante e arrepiante o sucedido, pois acredito plenamente na tua sensação de abraçar uma pessoa em vez de uma figura de barro, pois a figura de Nossa Senhora, à primeira vista, pode parecer de barro, mas tocada duvido k o seja....é como se diz: as aparênias iludem!!!
Concordo contigo Teresa, nada acontece por acaso!

beijinhos

MARISA

4/01/2006 1:04 da tarde  
Blogger florzinhanina said...

Bem que história...
Meu amigo ...
Há mais segredos entre o céu e a terra...
Bem fiquei ainda com mais vontade de ir e ver claro que também espero poder ser incluida na tertulia do chá verde, posso teresa?
o tema é bom nada acontece por acaso...
um beijo
NINA

4/02/2006 10:41 da manhã  
Anonymous Vértice da Alma said...

Armando já conhecia esta história
tão bela que nos deixa presos a toda a sua misticidade.
Nada mais poderei dizer senão:
Obrigado.
Bem hajas

4/03/2006 8:00 da tarde  

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